O vendedor: não existem histórias simples

O vendedor: não existem histórias simples

Jan 10, 2017 | 35 mm

Pelo Pe Teodoro Medeiros

Mais um pouco e esquecemos que o cinema foi inventado na Europa. É uma questão de números. Se, como dizem os italianos, a matemática não é uma opinião, então os milhões arrecadados pelas séries “Transformers” e “Guerra das Estrelas” colocam a pátria desta arte no outro lado do Atlântico.

O cenário repete-se do lado de cá (porque as pessoas gostam de ser entretidas). É, literalmente, uma questão de paciência (leia-se falta de). Até os gringos concordariam, eles que não se dão ao trabalho de pensar muito antes de usar o advérbio “literalmente”. Daí que pessoas (que estarão vivas) descrevem uma reacção mais efusiva com um “eu morri; literalmente!”. Com todas as letras.

Afinal, Deus criou o mundo enquanto o homem criou a internet e os sms (e quem disser que aquele é mais importante que estes, que juízo fazer das suas prioridades?). Também são mais aqueles que se apaixonam pela tecnologia do que os que se propõem defender o meio ambiente (também aqui os números não constituem mero ponto de vista).

Nas estatísticas do cinema ler-se-á ainda uma Europa envelhecida e desorientada. Sem saber bem em que é que acredita: deverá ser uma só? Ou decretar o salve-se quem puder? Que fazer com os refugiados? No que toca a Portugal, uma das tradições mais vivas é a de copiar as fórmulas de sucesso dos outros (a outra é a do cinema intelectual, muitas vezes bem complacente consigo próprio, embora haja excepções).

Tais excepções confirmam a própria regra que não seguem. Estes refugiados tentam sobreviver, vagabundos em busca, cá está, de uma pátria cinematográfica que seja ainda europeia. São, diga-se em justiça, as mãos que lavam o rosto da Europa.

Por outro lado, os berços das civilizações são estrelas vistas do Oriente: não correu Ulisses o mundo? Não nasceu a escrita (a primeira arte) no Médio Oriente? É tempo de voltarmos ao Irão, ao cinema puro de Asghar Farhadi. Aqui, a primavera não é só dos árabes mas uma nascente de ideias para o mundo saborear.

Uma nação opressora (falam os ocidentais) também destila o que define o ser-se Homem. A experiência é vivida em primeira mão pelo casal de “O vendedor” que vive os mesmos dilemas morais e dificuldades de outras paragens: violência sobre uma mulher, desconfiança… a justiça que parece misturar-se com a vingança.

Por um infeliz acaso, Rana abre a porta a um desconhecido que lhe virá a causar ferimentos na cabeça. Não chegamos a saber bem como (a arte suprema de não mostrar): o puzzle é psicológico, thriller digno de Agatha Christie e escava cada personagem até ao tutano.

E ficam as perguntas: o que é uma agressão e serve para quê? Que sequelas deixa e em quem? Quais são os direitos da vítima e é vítima quem foi ou quem quer sê-lo? Que importância se deve dar às circunstâncias enquanto atenuantes da culpa? Haverá alguém totalmente inocente? E culpado? É possível a justiça? Não é um paralelepípedo reto.

Que os personagens sejam atores de teatro amador e representem uma peça chamada “A morte de um caixeiro-viajante” não será mera coincidência: o ritmo é lento mas só assim o filme constrói bem o seu tema, a partir de mil detalhes inúteis, de corriqueiros que são. Quando se começa a desfiar a resolução final, perguntas formuladas pelo nosso cérebro (em segredo) serão atendidas.

Quanto é que vale um bilhete para ver um jogo do gato e do rato entre a consciência e as ações de uma pessoa? A resposta só pode ser: muito… vale muito.